Uma vez mais olhei pelo canto do olho, para o amontoado de folhas que cobriam o banco de pedra cinzenta. Sentei me no único canto que encontrei despido e olhei em volta. Naquele instante o tempo cansou-se e dormiu. Dormiu pesadamente como uma criança dorme depois de uma alegre brincadeira.
Perante o espelho das águas vi que já não era eu que ali estava. Ou era eu numa outra idade, num outro tempo. Quando as folhas caem é altura de preparar a nova folhagem, aquela que vem acompanhada de flores e de cheiros.
No inicio a borboleta descansou, num tronco partido e já despido, que por ali jazia, depois esvoaçou e ofereceu- nos um cocktail de cores frescas, suaves e delicadas. Entrou numa dança ritmada de vento, movimento e cor até que não consegui, mais, acompanha-la.
Olhei pela primeira vez, naquela manhã, para o mar e pareceu- me velho.O mar apresentou-se velho e triste. Não havia vigor na sua pulsão. Quase parecia parado e sem a energia a força que os seus braços estendem. Sentada na pedra fria; de cor parda, a saia de folho vermelho e laço de lado caia até aos tornozelos. A mãe tinha-a comprado na cidade. Naquela loja em que as gomas ficam arrumadas por cima das loiças de cristal numa grande prateleira de madeira de nogueira. Lembro me do dia em que a compramos. A mãe olhou a saia, na montra, no mesmo instante ela estava à minha frente. Corei por vergonha dos olhares dos outros e baixei os olhos. A saia veio comigo e a partir daí tornou se a minha predileta. O folho era delicado e proporcional, caia direito conferindo elegância às pernas. A única coisa que me irritava era o laço de lado que se desfazia muitas vezes. Achava o laço bonito e feminino mas quando ele se desfazia não conseguia voltar a coloca-lo e isso deixava me desaurida.
Ali, no banco, a olhar as folhas e o mar o laço estava de novo solto. Aflita tentei, com as pontas juntas, refazer o laço, mas por mais que tentasse as mãos pequenas e atrapalhadas não o conseguiam terminar. Esvoaçando sobre aquele amontoado de tecido e mãos a borboleta pairou entre mim e o mar e olhou- me, demoradamente. Com delicadeza dobrou uma asa e depois outra, quase em forma de laçada. As mãos pequenas e desajeitadas procuram de novo o pano e sem perceber dão- lhe nova vida. Tinham passado trinta anos o mar estava velho, as folhas caídas, o tempo dormia. E entre o tempo e o mar, os laços, feitos e desfeitos, voltavam uma e outra vez enquanto houvesse folhos, saias e mãos pequenas que conseguissem juntar as pontas.
continua
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