terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O mar velho e as pontas desfeitas

Uma vez mais olhei pelo canto do olho, para o amontoado de folhas que cobriam o banco de pedra cinzenta. Sentei me no único canto que encontrei despido e olhei em volta. Naquele instante o tempo cansou-se e dormiu. Dormiu pesadamente como uma criança dorme depois de uma alegre brincadeira.
Perante o espelho das águas vi que já não era eu que ali estava. Ou era eu numa outra idade, num outro tempo. Quando as folhas caem é altura de preparar a nova folhagem, aquela que vem acompanhada de flores e de cheiros.
 No inicio a borboleta descansou, num tronco partido e já despido, que por ali jazia, depois esvoaçou e ofereceu- nos um cocktail de cores frescas, suaves e delicadas. Entrou numa dança ritmada de vento, movimento e cor até que não consegui, mais, acompanha-la.
Olhei pela primeira vez, naquela manhã, para o mar e pareceu- me velho.O mar apresentou-se velho e triste. Não havia vigor na sua pulsão. Quase parecia parado e sem  a energia a força que os seus braços estendem. Sentada na pedra fria; de cor parda, a saia de folho vermelho e laço de lado caia até aos tornozelos. A mãe tinha-a comprado na cidade. Naquela loja em que as gomas ficam arrumadas por cima das loiças de cristal numa grande prateleira de madeira de nogueira. Lembro me do dia em que a compramos. A mãe olhou a saia, na montra, no mesmo instante ela estava à minha frente. Corei por vergonha dos olhares dos outros e baixei os olhos. A saia veio comigo e a partir daí tornou se a minha predileta. O folho era delicado e proporcional, caia direito conferindo elegância às pernas. A única coisa que me irritava era o laço de lado que se desfazia muitas vezes. Achava o laço bonito e feminino mas quando ele se desfazia não conseguia voltar a coloca-lo e isso deixava me desaurida.
 Ali, no banco, a olhar as folhas e o mar o laço estava de novo solto. Aflita tentei, com as pontas juntas, refazer o laço, mas por mais que tentasse as mãos pequenas e atrapalhadas não o conseguiam terminar. Esvoaçando sobre aquele amontoado de tecido e mãos a borboleta pairou entre mim e o mar e olhou- me, demoradamente. Com delicadeza dobrou uma asa e depois outra, quase em forma de laçada. As mãos pequenas e desajeitadas procuram de novo o pano e sem perceber dão- lhe nova vida. Tinham passado trinta anos o mar estava velho, as folhas caídas, o tempo dormia. E entre o tempo e o mar, os laços, feitos e desfeitos,  voltavam uma e outra vez enquanto houvesse folhos, saias e mãos pequenas que conseguissem juntar as pontas.

domingo, 28 de outubro de 2012

As portas que se abrem

As portas da carruagem fecharam-se e tive a noção exacta, naquele momento, que não poderia mais voltar atrás. De livro pousado nas pernas encostei a cabeça na janela fria  e as imagens sucederem se a um ritmo compassado e seguro, como se estivéssemos diante de um filme, daqueles filmes a preto e branco e com representações tão fortes que quase nos transportam para dentro da história. Há portas que, uma vez abertas, dificilmente se fecham. Parece até que as fechaduras foram feitas para serem utilizadas apenas uma vez. Quando as abrimos é bom que não olhemos para trás. A função da porta, quando se fala de uma verdadeira porta, é ser aberta e fechar de uma vez. Há aquela ideia de que a porta separa um mundo de outro, uma dimensão de outra. Não sei se assim é mas a verdade é que durante toda a vida sempre tive essa sensação de existirem várias portas e que todos os dias abríamos algumas e fechamos outras definitivamente. Parece até um corredor longo de portas de um lado e de outro e de cada vez que abrimos uma, há mil outras à nossa espera. Existem portas verdes, azuis, amarelas, pretas e sei lá que cores mais. Umas são bem pesadas, outras tão leves que parecem algodão. Não interessa qual a que escolhemos, interessa é escolher. Nunca saberemos se aquela foi a melhor selecção, provavelmente nunca é. Muito menos devemos procurar pessoas atrás das portas. Há pessoas que se escondem atrás das portas porque não querem ser encontradas, não devemos procura las lá, devemos respeitar quem não quer ser encontrado.Quantas vezes não queremos também nós ficar abraçar as pernas e ficar quietinhos atrás da porta para ninguém nos encontrar?  Quem quiser e que esteja lá que acenda a luz e que brilhe mas apenas porque quer. Que deixe as suas pegadas no chão e o perfume pelo ar e quem sabe essas marcas vão de encontro às nossas. Devemos procurar, atrás de cada porta, a Nós, apenas isso. Ir de encontro ao que de mais profundo e superior existe dentro de cada um. Esse dentro é quase sempre uma surpresa, uma caixa que se abre depois de aberta a porta.
 Os uivos do comboio fizeram se ouvir, o filme puxou a cortina,o comboio parou precipitadamente a porta abriu, uma vez mais, e eu levantei me lentamente e ainda sonolenta passei pela porta e fui de encontro a uma brisa marinha, suave, adocicada e persistente. Não olhei para trás e não procurei ninguém, mas vi no chão as pegadas e uma mala encostada a um platano que por ali crescia.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Feiticeiro de Oz ou ao encontro de nós

Conheci a Dorothy era pequena, tão pequena tão pequena que passei metade da vida à procura, tal como ela,  do feiticeiro de Oz. Aquele que dá corações a homens de lata, coragem a leões com medo, pensamentos a espantalhos e que ensina o caminho para voltar para casa, para a nossa casa. Tenho percorrido durante uma boa parte da vida a estrada de tijolos amarelos e, de tanto andar, os pés ficam doridos e tenho de parar. Numa dessas paragens, daquelas em que nos sentamos e olhamos para o céu e apreciamos o degradé das cores com que ele nos presenteia, vi a Dorothy, bem à minha frente, e percebi, finalmente, a magia de Oz. Cada tijolo de pedra amarela, que pisamos, é um passo ao encontro de nós. Quem não procura, todos os dias um verdadeiro coração para acabar com a lata da superficialidade? Quem não sonha com a coragem para enfrentar um mundo e continuar a caminho? Uma vez por outra quem não quer pensar e refletir por si? E não andamos todos à procura de um caminho para  casa? O mais angustiante e contraditoriamente promissor,  que se escancarou diante de mim, foi perceber a verdadeira natureza do feiticeiro de Oz e dos sapatos vermelhos. Na realidade feiticeiros de Oz somos todos nós. A magia está no nosso interior e só nós podemos fazer os sapatos vermelhos percorrem o caminho que queremos. A única coisa que o bruxinho fez foi mostrar aquilo que estava diante de cada um deles, de cada um de nós. A magia vive de dois ingredientes únicos: a esperança e a crença. São os dois que nos mostram a magia da vida e do mundo, são eles que nos ajudam a encontrar os" totós" e o aconchego das casas mágicas, onde sempre estivemos e que só temos de usar uns certos sapatinhos não para as encontrar mas para as VER.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Paredes Invisíveis

Lá onde o vento dorme e o crepúsculo se esconde existe uma casa pequenina com telhado de madeira e portas de janelas verdes. As paredes de pedra parecem esconder os risos envergonhados das crianças que nela habitam. Ao redor, a planície, verde, descansa da azafama do dia e dos castigos infligidos pela chuva cortante e espessa.
 Por todo o lado o cheiro ao Outono sacode-nos os sentidos e cria um entorpecimento inexplicável, tamanha é a beleza que nos abraça. Há anjos nestes sítios. Anjos que nos pegam pela mão e nos mostram qual o caminho a seguir. Os seus passos são suaves e etéreos mas são eles que marcam a pulsação dos destinos e dos dias. Nunca um anjo deixou de pegar numa mão porque é aí que, todo o mundo humano, se concentra. Uma mão....
Apenas uma mão que é capaz de nos secar as lágrimas, que ajuda nos sorrisos e que se agita nas despedidas. Há momentos em que essa agitação tem de ser feita porque há coisas, lugares e pessoas que temos de deixar seguir. Há despedidas que têm de ser feitas, talvez porque há, em nós próprios, a sede de separação e de corte. As piores, aquelas que mais doem, são com aqueles que estão, supostamente, próximos de nós.
 Há uma música que ouvi, há pouco, que diz que existem paredes invisíveis. Assim é. Viver com pessoas através de uma parede invisível é das dores mais pesadas que podem existir. Não só porque os momentos e os sentimentos não são reais, mas porque, acima de tudo, mais tarde ou mais cedo, seja de que forma for, essas paredes caem- nos em cima. Não é fácil derrubar paredes, mais difícil, ainda, é trepar por essas paredes acima. No entanto, quem o faz ganha um mundo. Um solitário mundo, uma folha de papel em branco, uma casa pequenina com telhado de madeira  e  portas com janelas verdes mas sem paredes invisíveis.