Lá onde o vento dorme e o crepúsculo se esconde existe uma casa pequenina com telhado de madeira e portas de janelas verdes. As paredes de pedra parecem esconder os risos envergonhados das crianças que nela habitam. Ao redor, a planície, verde, descansa da azafama do dia e dos castigos infligidos pela chuva cortante e espessa.
Por todo o lado o cheiro ao Outono sacode-nos os sentidos e cria um entorpecimento inexplicável, tamanha é a beleza que nos abraça. Há anjos nestes sítios. Anjos que nos pegam pela mão e nos mostram qual o caminho a seguir. Os seus passos são suaves e etéreos mas são eles que marcam a pulsação dos destinos e dos dias. Nunca um anjo deixou de pegar numa mão porque é aí que, todo o mundo humano, se concentra. Uma mão....
Apenas uma mão que é capaz de nos secar as lágrimas, que ajuda nos sorrisos e que se agita nas despedidas. Há momentos em que essa agitação tem de ser feita porque há coisas, lugares e pessoas que temos de deixar seguir. Há despedidas que têm de ser feitas, talvez porque há, em nós próprios, a sede de separação e de corte. As piores, aquelas que mais doem, são com aqueles que estão, supostamente, próximos de nós.
Há uma música que ouvi, há pouco, que diz que existem paredes invisíveis. Assim é. Viver com pessoas através de uma parede invisível é das dores mais pesadas que podem existir. Não só porque os momentos e os sentimentos não são reais, mas porque, acima de tudo, mais tarde ou mais cedo, seja de que forma for, essas paredes caem- nos em cima. Não é fácil derrubar paredes, mais difícil, ainda, é trepar por essas paredes acima. No entanto, quem o faz ganha um mundo. Um solitário mundo, uma folha de papel em branco, uma casa pequenina com telhado de madeira e portas com janelas verdes mas sem paredes invisíveis.