domingo, 28 de outubro de 2012

As portas que se abrem

As portas da carruagem fecharam-se e tive a noção exacta, naquele momento, que não poderia mais voltar atrás. De livro pousado nas pernas encostei a cabeça na janela fria  e as imagens sucederem se a um ritmo compassado e seguro, como se estivéssemos diante de um filme, daqueles filmes a preto e branco e com representações tão fortes que quase nos transportam para dentro da história. Há portas que, uma vez abertas, dificilmente se fecham. Parece até que as fechaduras foram feitas para serem utilizadas apenas uma vez. Quando as abrimos é bom que não olhemos para trás. A função da porta, quando se fala de uma verdadeira porta, é ser aberta e fechar de uma vez. Há aquela ideia de que a porta separa um mundo de outro, uma dimensão de outra. Não sei se assim é mas a verdade é que durante toda a vida sempre tive essa sensação de existirem várias portas e que todos os dias abríamos algumas e fechamos outras definitivamente. Parece até um corredor longo de portas de um lado e de outro e de cada vez que abrimos uma, há mil outras à nossa espera. Existem portas verdes, azuis, amarelas, pretas e sei lá que cores mais. Umas são bem pesadas, outras tão leves que parecem algodão. Não interessa qual a que escolhemos, interessa é escolher. Nunca saberemos se aquela foi a melhor selecção, provavelmente nunca é. Muito menos devemos procurar pessoas atrás das portas. Há pessoas que se escondem atrás das portas porque não querem ser encontradas, não devemos procura las lá, devemos respeitar quem não quer ser encontrado.Quantas vezes não queremos também nós ficar abraçar as pernas e ficar quietinhos atrás da porta para ninguém nos encontrar?  Quem quiser e que esteja lá que acenda a luz e que brilhe mas apenas porque quer. Que deixe as suas pegadas no chão e o perfume pelo ar e quem sabe essas marcas vão de encontro às nossas. Devemos procurar, atrás de cada porta, a Nós, apenas isso. Ir de encontro ao que de mais profundo e superior existe dentro de cada um. Esse dentro é quase sempre uma surpresa, uma caixa que se abre depois de aberta a porta.
 Os uivos do comboio fizeram se ouvir, o filme puxou a cortina,o comboio parou precipitadamente a porta abriu, uma vez mais, e eu levantei me lentamente e ainda sonolenta passei pela porta e fui de encontro a uma brisa marinha, suave, adocicada e persistente. Não olhei para trás e não procurei ninguém, mas vi no chão as pegadas e uma mala encostada a um platano que por ali crescia.

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